Page 336 - CURSO COMPLETO DE DIREITO AGRÁRIO, Silvia C. B. Opitz e Oswaldo Opitz, Ed. Saraiva, 7ª ed., 2013
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CURSO COMPLETO DE DIREITO AGRÁRIO, Silvia C. B. Opitz e Oswaldo Opitz, Ed. Saraiva, 7ª ed., 2013



          Por analogia, pode-se aplicar aqui a norma do art. 92, § 3Q,  do ET, e o arrendatário
          prefere o estranho,  em igualdade de condições,  na aquisição do  domínio útil.  O
          mesmo já não ocorre, se o foreiro doar, der em dote ou trocar por coisa não fungível
          o imóvel arrendado (CC, art. 688), porque a preferência só se dá quando há venda.
             O CC de 2002 proibiu novas enfiteuses e subenfiteuses, subordinando as exis-
          tentes ao CC/16 e leis posteriores, até sua extinção (CC/02, art. 2.038).
             Outro direito desmembrado do domínio é a servidão. É uma restrição à proprie-
          dade ou ao seu uso, tomando-a não plena. É uma classe especial de direitos reais,
          e já no direito romano reservava-se este vocábulo àqueles direitos. Para que haja,
          portanto, servidão é preciso que o exercício do direito de propriedade se restrinja.

          45. Servidões. Espécies
             A  servidão pode-se constituir por acordo de  vontades  sobre o  imóvel rural,
          perdendo-se, assim, o exercício de alguns dos direitos dominiais, mas o instituído
          na servidão não pode impedir que o arrendatário ou parceiro-outorgado continuem
          a exercer seu direito, decorrente do contrato, mesmo que isso não fique ressalvado
          na imposição do ônus real. Suponha-se uma servidão de águas (aquae ducendae),
          comum nas lavouras de arroz, cedida pelo proprietário a um vizinho. O dono do
          prédio dominante, mesmo que se trate de servidão total, não pode impedir o arren-
          datário ou contratante-agrário-serviente de fazer uso das mesmas águas desviando-
          -as de seu curso, porque a isso se opõe o art. 92, § 5Q,  do ET.
             As servidões rústicas mais comuns são: ius itineris, ou de passagem pela pro-
          priedade do vizinho; ius actus, de trânsito com rebanhos ou tropas; ius viae, que
          compreende o ius itineris e o ius actus, e abrange o direito de transportar materiais
          em qualquer veículo (incide aqui a regra do art. 1.385, § 2Q, do CC: "Nas servidões
          de trânsito a de maior inclui a de menor ônus, e a menor exclui a mais onerosa");
          aquae ducendae, já examinada e que pode conter o ius itineris ou a faculdade de
          canalizar a água do vizinho, incidindo, então, o art.  1.385, § 1 Q'  do CC; servidão
          aquae haustus, ou aquae hauriendae, que contém sempre o ius itineris e consiste
          no direito de ir buscar água na fonte vizinha ou alheia; servidão peco ris ad aquam
          ad pellendi, que consiste em permitir aos animais beberem em fontes vizinhas ou
          alheias,  compreendendo o  ius actus,  como decorrência do trânsito.  Esse direito
          pode ser limitado, dependendo da convenção das  partes,  de  modo que pode ser
          exercido a certas horas ou somente em tempo de seca. Esta servidão é de grande
          importância na zona rural, principalmente no Rio Grande do Sul, na parte das fa-
          zendas de criação de gados vacuns ou lanígeros. Servidão pecoris pascendi, que
          consiste no direito de apascentar os rebanhos em campos vizinhos, compreenden-
          do o ius actus, pela necessidade de trânsito dos animais, e pode conter as limitações
          da peco ris ad aquam ad pellendi. Esta servidão não se confunde com o contrato de
          pastoreio ou invemagem, muito comum no Rio Grande do Sul, Uruguai e Argen-
          tina, como veremos no exame do contrato agrário de invemagem (art. 4Q do Regu-
          lamento ao ET). Embora não prevista no CC, há uma servidão muito usada na zona
          rural, qual seja, a de uso de banheiros carrapaticidas pelos vizinhos. Apesar disso,
          valem as regras e os princípios sobre servidões para a solução do uso dessa servidão,
          mas não se pode esquecer que ela somente existe pela convenção das partes. Esta-
          belecida, embora contenha uma obrigação de fazer, ela se transforma em um direi-

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