Page 334 - CURSO COMPLETO DE DIREITO AGRÁRIO, Silvia C. B. Opitz e Oswaldo Opitz, Ed. Saraiva, 7ª ed., 2013
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CURSO COMPLETO DE DIREITO AGRÁRIO, Silvia C. B. Opitz e Oswaldo Opitz, Ed. Saraiva, 7ª ed., 2013



           44. Imposição de ônus real

              Refere-se a lei à imposição de ônus real ao imóvel, para dizer que ele não inter-
           rompe a vigência dos contratos de arrendamento ou de parceria (ou dos contratos
           agrários, art.  15 do Regulamento).
              A instituição de ônus reais sobre o imóvel arrendado, dado em parceria ou obje-
           to de qualquer outro contrato agrário, não interrompe o contrato de seu uso e gozo.
              O ônus é direito de crédito que consiste em direito à prestação ligada ao bem,
           semelhantemente - não identicamente - ao direito hipotecário. Não há direito real
           de  garantia  nos  ônus  reais;  há  concentrabilidade  da  execução  forçada  e
           privilégio (cf. Pontes de Miranda, Tratado de direito privado, v.  18, p. 225).
              A lei fala em ônus reais quando parece referir-se a direitos reais que não a
           propriedade do imóvel rural. A lei se orientou por erro antigo de alguns autores que
           consideravam direitos reais os ônus reais, inclusive nosso Lafayette (Direito das
           coisas,§ 1Q, item 4, c). Portanto, quando se fala no art. 92, § 5Q, do ET e art.  15 de
           seu Regulamento, de instituição ou imposição de ônus reais ou ônus real ao imóvel,
           quer dizer que são os direitos reais limitados, porque da propriedade é que tratou
           o mesmo parágrafo, quando se referiu à alienação.
              A imposição de direito real sobre o imóvel arrendado, ou dado em contrato
           agrário, nada tem que ver com os  mesmos ônus que já existiam sobre ele e que
           passam com ele para o domínio do adquirente, mas se refere àqueles direitos reais
           conferidos a alguém, tais como a enfiteuse (CC/16, art. 678), as servidões, o usu-
           fruto,  o uso, a habitação, o penhor, a anticrese, a hipoteca (CC, art.  1.225), bem
           como o fideicomisso (CC, art.  1.953) e a retrovenda (CC, art. 505).
              Os adquirentes dos direitos reais (ou a instituição desse direito sobre o imóvel
           rural, objeto de contrato agrário), por força do art. 92, § 5Q, do ET e art.  15 do seu
           Regulamento, são obrigados a respeitar os contratos agrários vigentes à época de
           sua constituição, ficando sub-rogados nos direitos e obrigações do proprietário.
              Examinaremos alguns desses direitos, rapidamente, para se ter uma ideia do
           alcance da regra em exame, ressalvados aqueles que não afetam a substância do
           contrato agrário.
              O primeiro é a enfiteuse ou aforamento (CC/16, arts. 678 e 2.038 do CC/02),
           cuja história já foi bosquejada em páginas anteriores (item 41 ). A enfiteuse é direito
           real de posse, uso e gozo pleno do imóvel alheio. Era o ius in re aliena mais amplo
           até o advento do ET, que, pelo seu Regulamento, estabeleceu regra idêntica àquela
           do art.  681  do CC, quando disse:  "Nos casos em que o arrendatário é o conjunto
           familiar, a morte de seu chefe não é causa de extinção do contrato, havendo naque-
           le  conjunto outra pessoa devidamente qualificada que prossiga na execução do
           mesmo" (art. 26). Dá-se a enfiteuse por ato inter vivos ou de última vontade, em que
           o proprietário atribui o domínio útil do imóvel rural a alguém, mediante o pagamen-
           to de uma renda anual, certa e invariável, denominada canon. A finalidade da enfi-
           teuse foi a exploração econômica de terras não cultivadas. Só muito mais tarde foi
           que alcançou os terrenos destinados a edificações. Por isso, o adquirente do domínio
           útil visa usar e fruir do imóvel enfitêutico, daí a razão do art. 92, § 5Q, do ET.
              À  primeira vista,  parece que o  imóvel arrendado,  dado  em parceria ou  em
           contrato agrário, não possa ser objeto de enfiteuse, pois em regra são terras culti-
           vadas, quando a lei civil dispõe que "só podem ser objeto de enfiteuse terras não

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