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previsível e se entregar à experiência. Meu amigo foi, então, para a reserva de Mamirauá,
no estado do Amazonas, e, depois, comprou uma rede e embarcou num barco de linha pelo
rio Solimões. A única parte previsível da viagem é que ele voltaria apaixonado —
transformado e transtornado. E foi o que aconteceu. Meu amigo agora é um brasileiro com
uma memória amazônica dentro dele, que o sobressalta a cada (má) notícia anunciada pelos
jornais de São Paulo, onde vive.
A experiência do meu amigo me ajudou a compreender por que boa parte dos brasileiros
pouco se importa com a Amazônia. Se você perguntar para qualquer pessoa na rua ou numa
festa de família, ela vai enfaticamente dizer que a Amazônia é nossa, é o pulmão do mundo,
é importantíssima. Mas, na prática, vai testemunhando a devastação da floresta pelo
noticiário enquanto toma um pingado ou uma cerveja. Porque a Amazônia, para a maioria,
não passa de uma abstração.
Uma floresta meio mitológica e longe, muito longe — não digo distante como Marte, mas
muito mais distante do que Miami, Cancun ou mesmo o deserto do Atacama ou a Patagônia,
destino dos que se consideram um pouco mais aventureiros. Até porque a Amazônia real
exige força de espírito, uma entrega ao incontrolável da vida. A relação me lembra da
inauguração do Animal Kingdom (Reino Animal), parque temático da Disney, nos anos 90,
em que as crianças presentes ficaram profundamente entediadas porque os leões de
verdade não falavam com elas nem faziam shows aeróbicos, mais preocupados eles mesmos
em dormir de tédio naquela selva de mentira.
Em Mamirauá, meu amigo era o único brasileiro do grupo. Havia dois britânicos, dois
australianos e um austríaco. Nenhum deles fazia o tipo Indiana Jones. Meu amigo é roteirista
de TV, dois dos visitantes eram do mercado financeiro e mexiam com a Bolsa, uma mulher
estava estudando mandarim porque seu banco a mandaria para a China no mês seguinte,
outra era publicitária, e o austríaco era um aposentado que cuidava da mulher doente havia
duas décadas e uma vez por ano tirava férias e saía pelo mundo. Todos eles conheciam o
Brasil — não o país turístico, mas um bem mais interessante — melhor do que o meu amigo,
o que o deixou primeiro chocado, depois envergonhado. Deram-lhe dúzias de dicas preciosas
sobre lugares pouco badalados. E não, não estavam atrás da biodiversidade brasileira.
Queriam apenas conhecer o Brasil profundo e voltar para a rotina de suas vidas em seus
países de origem com experiências — e não apenas com fotografias.
Fico me perguntando: por que a discussão do novo Código Florestal não mobiliza multidões
em vez dos mesmos de sempre? Ou por que o povo não protesta pela aprovação açodada
da usina de Belo Monte, concedida pelo Ibama mesmo sem que o consórcio tenha cumprido
todas as exigências, num processo claramente atropelado desde o início?
Está em curso a aprovação de um Código Florestal que contraria o bom senso ao anistiar
desmatadores, entre outras liberalidades, e que representa um retrocesso na política