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Sandra M. G. Pinto                                            FRAGMENTA HISTORICA


           funções, que eram anuais, ficassem obrigados   pouco tempo depois, por ficar fixado como lei
           a servir  no  cargo  de  almotacé  durante  um   geral nas Ordenações Afonsinas .
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           mês no  ano camarário subsequente, o qual   Assim,  e  tomando  como  condição  a  efetiva
           se iniciava em abril . Afinal, em Lisboa, parte   transmissão de cargos concelhios em Lisboa,
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           desta praxe encontra-se comprovada desde   torna-se possível sugerir que o escudeiro
           1299 para os alvazis (ou juízes), sabendo-se   João Esteves, que foi procurador do concelho
           deste preceito por uma carta de D. Dinis que   em 1405-1406, tenha sido designado
           ao instituir os dois lugares de juízes dos órfãos   automaticamente  como  almotacé  no  ano
           definia  que  fossem  ocupados  pelos  “Alvaziis   camarário seguinte (que englobava os restantes
           que  ora  ssom.  pois  sayren  do  alvaziado  e  de   meses de 1406), podendo-se, então, pensar
           mes da almotaçaria segundo vosso custume.   que  este  indivíduo possa ser o mesmo João
           nos onze meses depois” . Aliás, se se aceitar   Esteves Correia, escudeiro, que na era de 1444
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           que os regimentos de Évora e de Arraiolos   – e, portanto, no ano de 1406 – mandou fazer
           tiveram  “por  base  um  manuscrito  jurídico-  o foral da almotaçaria durante o desempenho
           legislativo comum, que poderá ser identificado   das suas tarefas.
           com o Caderno de Justiça do infante D. Duarte”,
           de 1418, conforme hipótese desenvolvida    Pese embora a coincidência encontrada no
           por José Domingues , será que o preceito   nome,  no  título  nobiliárquico  e  no  ano  de
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           da transmissão dos magistrados camarários   1406, em bom rigor, a hipótese de o foral da
           do ano anterior para o lugar da almotaçaria   almotaçaria ter sido produzido no ano de 1444
           não  poderia  ter  sido  resultado  de  práticas   não pode ainda ser totalmente descartada.
           instituídas na capital do reino?           Mesmo  admitindo  que  o  escudeiro  que
                                                      mandou fazer este regulamento fosse o
           Com efeito, se a falta dos livros de registos   referido  por  Fernão  Lopes  –  pela  menção
           dos  nomes  dos  almotacés  e  mais  oficiais
           camarários – que deveriam existir desde a lei   desta praxe devido à falta de muitos dados, em especial
           imposta por D. Afonso IV ,  –  não  permite  a   para o cargo de almotacé. Ainda assim, alguns casos
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           verificação desta praxe na transição do século   esporádicos testemunham-na: Gil Peres e Pedro Esteves
           XIV para o XV , certo é que o sistema acabou,   foram  alvazis  em  1331-1332  e  almotacés  em  abril  de
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                                                      1332; Pedro Eanes de Alfama foi alvazil dos ovençais em
           43  Maria Teresa Campos Rodrigues,  Aspectos da   1341-1342 e almotacé em maio/junho de 1342; Fernão
           administração municipal de Lisboa…,  p.  37.  Mário   Álvares da Escada de Pedra foi vereador em 1417-1418
           Farelo, A oligarquia camarária de Lisboa…, p. 37.  e almotacé em janeiro de 1419.
           44  Cf. carta régia de 28 de janeiro de 1299, em Marcelo   48   Conforme  as  conclusões  de  José  Domingues,  As
           Caetano, A administração municipal de Lisboa…, p. 133.  Ordenações Afonsinas, Três Séculos…, pp. 117-118,
           45  José  Domingues,  Ordenações  portuguesas  embora tenha havido fases compilatórias preliminares
           desaparecidas…, pp. 6-12.                  ao tempo de D. João I, a tarefa derradeira que deu
           46   Cf.  com  “Ley,  como  os  Almutacees  devem  fazer   origem aos cinco livros das Ordenações Afonsinas teve
           em  seus  Officios”,  em  Livro das Leis e Posturas…,   início no reinado de D. Duarte e foi terminada em 1446,
           pp.  259-261:  “Porque  ElRey  hé  certo,  que  em  feito   ainda na menoridade de  D. Afonso V. Nestas estava
           da Almoteçaria nom se faz, o que deve com mingua   estabelecido que os oficiais concelhios do ano anterior
           d’escarmento de Justiça […] que daqui adeante se faça   serviam como almotacés apenas nos três primeiros
           per esta guisa, convem a saber, que logo seja feito   meses do ano, ou seja, colocavam-se, respetivamente,
           hũu  livro  em  cada  Villa,  que  tenha  o  Procurador  do   dois juízes ordinários no primeiro mês, dois vereadores
           Concelho, e em no começo desse livro sejam escriptos   no segundo mês e um vereador com o procurador no
           os Juizes, ou Alvaziis de cada Villa, ou lugar, que em   terceiro mês. Cf. prol., §§ 1 e 2, do Título XXVIII, Livro
           esse anno forem, e o Procurador desse Concelho, e os   1, das  Ordenações Afonsinas…, pp. 179-181. Assim,
           Almotacees de cada hũu mez […] E os almotacees, que   percebe-se que, no preceito da transmissão de oficiais
           assy forem ordenados sejam escritos polos Escrivam do   camarários para o lugar da almotaçaria, as Ordenações
           Concelho em hũu Livro, que tenham pera esto, e pera   Afonsinas seguiram não o sistema de Évora (ver supra,
           as outras cousas de Vereamento da Villa”; também em   nota 41), mas o adotado para Arraiolos (ver supra, nota
           Ordenações Del-Rei D. Duarte…, p. 351-352.  42), pois nem todos os concelhos do reino deveriam ter
           47  Também, as listas dos oficiais e do elenco camarário   no corpo dos oficiais camarários quatro juízes, quatro
           coligidas por Mário Farelo,  A oligarquia camarária   vereadores e dois procuradores. A redução referida
           de Lisboa…,  pp.  315-675,  711-731,  não  devolvem   permitiu,  portanto,  generalizar  a  norma  a  todas  as
           nenhuma certeza (de comprovação ou de refutação)   realidades locais.


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